DISLEXIA EXISTE?

por Maria Inez Ocanã De Luca*

Sou da opinião de que devemos questionar tudo, mas também sou da opinião de que diante de fatos não há argumentos e que persistir na discussão sinaliza dificuldade para ouvir e rigor intelectual incapacitante.

Os fatos que levam à dislexia são muitos e a forma utilizada para se chegar a eles foram pesquisas científicas rigorosas e sérias, conduzidas por pesquisadores e instituições renomados de todas as partes do mundo.

Sim a dislexia está presente, é reconhecida e estudada em todo o mundo e em todas as línguas e culturas.

A seguir passo a descrever algumas das alterações neurobiológicas e funcionais encontradas nas citadas pesquisas.

-Alterações cromossômicas. Como temos várias áreas envolvidas na aprendizagem também são vários os cromossomos com alterações nos casos de dislexia. Os mais citados nos trabalhos consultados são: 1, 2, 3, 6, 7, 17 e 18, provando que a dislexia tem origem poligênica e multifatorial. (Markhan, 2002; Saviour e Ramachandra, 2006)

-Neurônios do tecido cerebral 20% menores em regiões relacionadas à leitura. (Galaburda e Kemper, 1979)

-Lentificação do processamento visual. Justificando a lentificação encontrada entre disléxicos ao realizar a leitura. (Galaburda e Kemper, 1979, Stein e Walsh, 1997)

-Lentificação do processamento auditivo. Justificando a leitura lenta e trocas de letras, além de explicar o fato de disléxicos ao lerem terem uma tendência a adivinhar a palavra após ler lido somente o início dela, com a intenção de agilizar o processo. (Galaburda e Kemper, 1979; Stein e Walsh, 1997)

-Ectopias, que são deslocações ou posições anômalas de células no cérebro, em especial em regiões onde se espera o processamento da aprendizagem da leitura e escrita. (Stein, 2001)

-Microgírias ou polimicrogírias, que são malformações em células do cérebro. (Galaburda e Kemper, 1979; Humphreys e col., 1990 e Stein, 2001)

-Displasias ou desorganização de neurônios. (Fitch e col., 1994)

-Simetria hemisférica. Menor grau de lateralização. É comum entre disléxicos a lateralidade mista ou cruzada. A leitura eficiente é altamente lateralizada o que é possível observar em ressonância magnética funcional, onde se observa a utilização prioritária do hemisfério esquerdo para atividades de leitura entre leitores sem dificuldade. (Galaburda, 1983; Galaburda e col. 1987; Pennington e col., 2000)

-Falha ou demora na aquisição de habilidades cognitivas e ou motoras. Os disléxicos apresentam alguma demora, não considerada significativa ou preocupante pela pediatria, na aquisição da fala, do andar, ao aprender a amarrar cadarços, para recortar e pintar dentro do contorno.  (Nicolson e Fawcet, 2008)

-Menor ativação cerebral nas áreas visuais para processar alvos em movimento. (Eden e col., 1996; Livingstone e col., 1991)

-Déficits do movimento sacádico e instabilidade binocular, causando visão instável e sobreposição de imagem. É comum o relato de disléxicos mencionando letras que se mexem ao tentarem ler. (Breitmeyer e Breier, 1994; Stein, 2001)

-Incapacidade de isolar informações distrativas. Os disléxicos apresentam orientação e focalização da atenção prejudicadas, que são diferentes das dificuldades de atenção encontradas no quadro do TDAH (Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade). No caso do disléxico a desatenção é funcional e no caso do TDAH acontece um desequilíbrio químico que pode ser corrigido através de medicação apropriada. (Facoetti e Turatto, 2000; Facoetti e col., 2003; Visser e col., 2004)

-Dificuldade na representação e evocação dos sons, envolvendo neste caso prejuízo da memória. (Ramus, 2001)

-Distribuição da atividade cerebral não habitual durante a leitura, ou seja, utilização de áreas cerebrais de forma diferente entre disléxicos e bons leitores. Entre estes há uma preferência pelo hemisfério esquerdo e entre os primeiros há uma distribuição entre os dois hemisférios e ativação de áreas menores. (Bakker, 2008; Eden e col., 1996; Eden e Zeffiro, 1998; Joseph e col., 2001;  Nicolson e Fawcett, 2008; Pestun e col., 2002;  Sauer e col., 2006; Turkeltaub e col., 2002)

-Pobre domínio tátil. (Saviour e Ramachandra, 2006)

-Déficit cerebelar. O cerebelo é responsável pelo equilíbrio e coordena os movimentos comandados pelo cérebro. Explicaria em parte algumas dificuldades relatadas pelos disléxicos para a prática de esportes coletivos, como o futebol, por exemplo. (Nicolson e col., 2001)

-Déficit na percepção de contraste e cor. A utilização de fundos coloridos ou letras coloridas poderiam alterar a eficiência da leitura. (Stein, 2001)

-Quadros alérgicos. A testosterona está diretamente envolvida no crescimento do cérebro e o excesso deste hormônio ou a sensibilidade a ele pode causar ectopias e ação negativa sobre o sistema imunológico.  Explicaria ainda o histórico de aborto entre as famílias de disléxicos.  (Bakker, 2008)

-Déficit no sistema visual magnocelular. Este sistema é importante para a atenção visual, o controle do movimento do olho, a atenção visuespacial e visão periférica. Todas estas funções são de suma importância para a realização da leitura.  (Schulte-Korne e col., 2004; Solan e col., 2007; Stein, 2001 e Wilmer e col., 2004)

-Células do sistema magnocelular do núcleo geniculado lateral 27% menores entre disléxicos (Galaburda e col., 1994), que prejudicariam a eficiência e a velocidade do processamento visual. (De Luca, 2009, Facoetti e Turatto, 2000; Hari e col., 1999; Schulte-Korne e col., 2004)

Tantas são as alterações tanto neurobiológicas quanto funcionais que se torna difícil, senão impossível, negar a existência de um quadro que leva à dificuldade de leitura, escrita e compreensão da leitura.

Agora se este quadro deve ser chamado de dislexia ou não, se a definição utilizada atualmente é adequada ou não,  podemos continuar com esta discussão, porém quanto à existência do quadro e da dificuldade penso que não há o que se questionar.

Cabe apenas a todos nós profissionais da área da Educação e Saúde trabalharmos em favor de agilizar e facilitar o processo de aprendizagem daqueles que muito sofrem com esta questão,  uma vez que este ato deveria ser prazeroso e estimulante para cada todos nós, tanto professores quanto alunos.

*Maria Inez Ocanã De Luca
Psicóloga
Membro do CAE e CTAS – ABD (Centro de Avaliação e encaminhamento e Centro de Triagem de Atendimento Social da Associação Brasileira de Dislexia)
Pós-graduada em Aprendizagem com foco em saúde
Mestre em Psicologia da Saúde
Especializada em Neuropsicologia
Tel/Fax: (11) 3258-7568 / 3231-3296
www.dislexia.org.br

inezdelucapsi@gmail.com

 

 

Referências:

BAKKER, D. O cérebro e a dislexia. PWP. Net. Cabo. Pt Informações sobre dislexia.

BREITMEYER, B. G., BREIER, J. I. Effects of bachground color in reaction time to stimuli varying in size and contrast: Inference about human M channels. Vision research, 34, 1039-1045, 1994.

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